Tradição não segura pista na F1

Com voltas de Paul Ricard e Hockenheim e ‘vai, não vai’ de Interlagos, relembre alguns traçados incríveis que por diferentes razões foram 'esquecidos'

Enquanto Interlagos vive seu eterno ‘vai, não vai’ mesmo sob contrato com a F1 até 2020, pelos menos outras duas pistas estão prontas para voltar ao calendário na temporada de 2018. Igualmente tradicionais, mas que viveram períodos de ausência no programa da principal categoria do automobilismo, Paul Ricard e Hockenheim são exemplos vivos (ou renascidos) de que só tradição não segura pista.

Os novos GPs da França (24/6) e da Alemanha (22/7) sofreram com mutilações nos seus traçados mais característicos, mas ainda prometem corridas boas como nos velhos tempos. Acontece que só essas corridas boas do passado não foram suficientes para mantê-los intactos como ‘berços do automobilismo’, ‘templos da velocidade’ e tantas outras falácias que em geral servem para esconder as reais deficiências ou pressões políticas que um autódromo tem de lidar.

A questão passa longe de qualquer sugestão administrativa para o que ainda deve ser um local para se correr de carro. O problema está muito mais no fato de que pistas são facilmente esquecidas por inúmeros os motivos. Também de nada adianta produzir o espetáculo do último GP de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, com míseras ultrapassagens e uma corrida sem graça.

Confira a seguir as 10+ pistas que já fizeram parte da F1:

Paul Ricard (Le Castelle, França)

Primeiro lugar a chamar uma corrida de automóveis de “Grande Prêmio”, a França volta a receber a F1 em 2018. A corrida será no modificado, mas ainda veloz circuito de Paul Ricard. A longa reta Mistral, por exemplo, agora é interrompida por uma chicane, mas ainda reserva alta velocidade e a promessa de bons pegas. Atualmente, a pista localizada próxima a Marselha, abriga testes de pneus da Pirelli e nem de longe será desconhecida de equipes e pilotos no ano que vem.

O circuito esteve na F1 em 14 alternadas oportunidades entre 1971 e 1990. A festa por lá chegou a ser completa com as vitórias de René Arnoux e de Alain Prost, ambos de Renault. Para justamente honrar a tradição de um dos países que mais teve casas na categoria, o GP da França mudou-se para Magny-Cours. Essa, aliás, que também foi facilmente esquecida a partir de 2008 por problemas de acesso e acomodações no entorno. Na época, uma suposta corrida em Paris também foi ventilada.

Hockenheimring (Hockenheim, Alemanha)

Outra pista tradicional que volta à F1 para a aguardada disputa do pentacampeonato entre Sebastian Vettel e Lewis Hamilton, Hockenheim estará mais uma vez no calendário. Mais uma vez também não se sabe ao certo até quando já que as sucessivas faltas de acerto entre promotores e os antigos donos do evento atrapalharam inclusive as tratativas também com o Liberty Media.

Desde 2008, havia também o revezamento com Nürburgring para sediar a F1 até a não realização da prova em 2015. No ano seguinte, Hockenheim voltou, mas não deu continuidade. Um dos circuitos mais antigos, evidentemente teve seu traçado inúmeras vezes alterado, mas sempre tentou conservar as longas retas pelo meio da floresta. A mudança do início do novo milênio, no entanto, acabou com a principal característica do circuito da primeira vitória de Rubens Barrichello.

Circuito do Estoril (Portugal)

Ainda sobre primeira vitória, foi no autódromo do Estoril que Ayrton Senna pisou pela primeira vez no alto do pódio de uma corrida de F1 – Niki Lauda (1984) e Alain Prost (1993) também foram felizes e conquistaram alguns de seus títulos mundiais na pista portuguesa. A prova em Cascais abrigou a principal categoria do automobilismo de 1984 a 1996, mas a crise econômica e a falta de representatividade no cenário do automobilismo levaram a F1 para outros mundos.

Não à toa, o circuito contempla uma sequência de animados ‘esses’ e a parabólica Ayrton Senna, palco de uma das maiores ultrapassagens da história recente da F1, de Jacques Villeneuve (Williams) em Michael Schumacher (Ferrari), em 1996. O traçado permanece seletivo, com curvas de média e de baixa velocidade, mas um pouco estreito para os padrões atuais de carros mais largos.

Autódromo Enzo e Dino Ferrari (Ímola, Itália)

O circuito de Ímola, na Itália, – mas muito mais próximo e que por isso abrigou o GP de San Marino – talvez nem merecesse o rótulo de ‘circuito que matou Ayrton Senna’ (e também o austríaco Roland Ratzenberger) em 1994. A pista na Bolonha, a 80 km de Maranello, é verdadeiramente a casa da Ferrari e tinha seu charme em suas subidas às cegas e descidas em alta velocidade.

No calendário de forma oficial desde 1980 (primeiro como GP da Itália já que Monza estava em obras), Ímola ficou na F1 até 2006. O antigo chefão Bernie Ecclestone nunca foi propriamente fã de duas provas no mesmo país e sempre fez exigências mil para continuar levando seu evento para lá. Com o tempo, o autódromo foi ficando obsoleto aos olhos do dirigente e não bastavam alterações na Tamburello. Esteve perto de voltar para este ano, mas isso também significaria mais dia, menos dia, em romper com Monza, outro tempo da velocidade.

Park Zandvoort (Zandvoort, Holanda)

Em linhas gerais, o traçado de Zandvoort em muito lembra o de Ímola. O ziguezague em altíssima velocidade, em subidas e descidas, davam muito charme ao GP da Holanda. A prova foi uma constante no calendário oficial de 1952 a 1985 e acabou por brigas entre os proprietários do autódromo e a FOM e a pouca infraestrutura da cidade costeira.

Queridinha dos pilotos que andam por lá em campeonatos europeus e, sobretudo, sob o efeito Max Verstappen e o olhar atendo da Liberty Media, não seria nenhuma surpresa se Zandvoort voltasse a figurar entre as pistas da F1. Atualmente, uma ampla (e cara) reforma precisaria ser realizada no circuito para receber a licença exigida pela FIA. Também dependeria bastante dos esforços de Amsterdã, a cerca de 35 km, para abrigar os hóspedes da categoria.

Donington Park (Leicestershire, Inglaterra)

Pode um circuito que fez parte da F1 apenas uma vez deixar tanta saudade? A pista não tem lá muita história para contar na principal categoria do automobilismo, mas recebeu “a maior primeira volta da história”. Foi em uma prova em Donington Park, esforço de um empresário e colecionador de veículos, que Ayrton Senna largou em quarto, caiu para quinto e, a partir daí, começou seu show particular na pista molhada. A denominação da prova era GP da Europa para não rivalizar com o GP da Inglaterra.

Se bem que Bernie Ecclestone, sempre ele, também chegou a utilizar a pista para fazer leilão com Silverstone. Em meados dos anos 2000, o então chefão chegou a propor um acordo de longa duração desde que houvesse uma reforma tocada pelo famoso arquiteto alemão Hermann Tilke para adequar a pista aos padrões hoje exigidos. A falta de recurso – e também uma dose de concorrência exagerada que seria criada com outras pistas, como Brands Hatch, por exemplo, afastou uma segunda corrida no local.

Kyalami, (Joanesburgo, África do Sul)

O circuito de Kyalami recebeu a F1 de forma oficial em 18 oportunidades de 1967 até 1985. Sempre em cenário político devastador sob influência do apartheid, voltou ao calendário para as provas de 1992 e 1993, mas sem retorno financeiro esperado pelos organizadores e também muito custosa para as equipes. Assim, a pista que viu o anfitrião Jody Scheckter vencer deixou a categoria.

O traçado preferido dos amantes da velocidade durou até a década de 1980, quando os carros ultrapassavam facilmente os 300 km/h em longa retas. Foi nesse traçado veloz que Nelson Piquet conquistou o bicampeonato em 1983, na última corrida do ano. Em Kylami também aconteceu um dos acidentes mais feios da história do automobilismo. Em 1977, o piloto Tom Pryce atropelou um fiscal de prova que corria para apagar o incêndio do companheiro de Shadow e os dois morreram na hora em uma batida tão assustadora quanto violenta.

Circuito de Rua de Detroit (Estados Unidos)

Os Estados Unidos foram o país que mais tiveram casas da F1. Só em 1982, eram três os GPs disputados em terras norte-americanas: o do Oeste em Long Beach, o de Las Vegas e o do Leste em Detroit. Nesse último, o Brasil sentia-se em casa com uma vitória de Nelson Piquet (1984) e três de Ayrton Senna (1986-88) em sete anos de disputa desde 1982.

O circuito de rua, ao redor dos arranha-céus do Renaissence Center, podia não ter o glamour de Mônaco apesar do túnel, mas suas esquinas em 90 graus e retas velozes e estreitas garantiam um GP sempre animado de pista muito escorregadia. A partir de 1989, a pista foi pedida e passou a ser utilizada pela CART.

Circuito de Rua de Adelaide (Austrália)

Já em 1985, a F1 olhava para outros mercados fora dos grandes centros do automobilismo. Logo de cara, encontrou uma rara superveloz pista de rua em um clima de ótima receptividade dos fãs de automobilismo. Os carros andavam em altíssima velocidade nos arredores do Victoria Park, na honrosa última prova da temporada.

Assim foi até 1995, quando a pressão política de Melbourne levou o GP da Austrália para as ruas do Albert Park, de características até similares, é verdade. Agora, a prova na Oceania abriria o calendário. Mas em 11 edições da corrida, Adelaide viu grandes decisões de título protagonizadas pelo pneu estourado de Nigel Manssel (1986) e a batida de Michael Schumacher em Damon Hill (1994).

Fuji (Shizuoka, Japão)

Inicialmente pista da Mitsubishi, o circuito aos pés do Monte Fuji é desde os anos 2000 a casa da também japonesa Toyota. O autódromo, que por falta de verba não virou um oval ao estilo da Nascar, recebeu o primeiro GP do Japão, em 1976. De cara, uma das disputas de título mais célebres da história da F1 entre Niki Lauda e James Hunt. Mais uma única prova aconteceu no ano seguinte, antes da corrida retornar à Terra do Sol Nascente só em 1987, já em Suzuka.

Apenas mais duas corridas aconteceram em Fuji, em 2007 e 2008, já com o traçado bastante remodelado, mas ainda bastante rápido apesar da criação da chicane na última curva. A pressão política da Honda, dona de Suzuka, e a dificuldade financeira da indústria automobilística fizeram então a F1 virar as costas para Fuji. No início da década, houve muita especulação para a readoção do nome GP do Pacífico, que era disputado em Aida, para que o circuito voltasse a receber a categoria. Algo que até hoje não se concretizou.

FONTE: https://grandepremium.grandepremio.uol.com.br/10/materias/tradicao-nao-segura-pista-na-f1