F1 2017 vs F1 2016

Duas temporadas. Dois regulamentos técnicos. Quase o mesmo calendário. Qual dos anos foi o mais interessante?

Estão sendo fechadas as cortinas de 2017. Já passou da hora de analisar o que foi bom, o que foi ruim e quem se saiu melhor nos últimos 12 meses, não é? Mas, e a Fórmula 1 como um todo? Afinal, a categoria número um do automobilismo mundial introduziu diversas mudanças técnicas em seus carros, enquanto o número e locais dos GPs continuaram quase os mesmos. Até mesmo entre as equipes e os pilotos houve poucas mudanças – a mais notável talvez tenha sido a saída de Nico Rosberg.

Por isso, comparamos as duas temporadas mais recentes. Qual, nos resultados, foi a mais interessante?

Vamos lembrar, antes de tudo, as mudanças técnicas. Os carros ficaram maiores (a largura geral foi para 2m), enquanto a asa dianteira cresceu e a traseira ficou mais baixa. Os difusores traseiros também aumentaram, assim como o peso mínimo (para 728kg). Já os pneus ficaram 25% mais largos. O resultado destas mudanças foram carros visualmente mais agressivos, que retornaram com as barbatas de tubarão e com estranhas asas e T na tampa dos motores. Com tudo isso, os bólidos ficaram mais difíceis de guiar e bem mais rápidos, quebrando praticamente todos os recordes de velocidade e tempo.

Já no calendário as mudanças foram mais simples: o Grande Prêmio da Alemanha acabou de fora, diminuindo a temporada para 20 corridas. China e Bahrein trocaram de lugar na ordem de GPs, assim como Malásia e Singapura.

Por fim, a maior mudança – mas que, inicialmente, surtiu mais efeitos fora do que dentro da pista – foi a aquisição da F1 pelo grupo norte-americano Liberty Media.

Mercedes x Mercedes

Assim como em 2016, 2017 resultou nos títulos de pilotos e construtores para a Mercedes. Porém, se na temporada anterior as Flechas de Prata correram sozinhas, agora houve alguma disputa. Isso se refletiu na tabela final de classificação.

No ano passado, a equipe alemã marcou 765 pontos, contra 668 em 2017 – quase 100 a menos, lembrando que havia menos 43 pontos em disputa na atual temporada. A diferença fica mais clara quando olhamos para as vitórias: as Flechas de Prata venceram 19 dos 21 GPs de 2016 (uma das derrotas, inclusive, por causa daquela batida entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg na Espanha), enquanto em 2017 foram 12 primeiros lugares. É uma boa queda.

Talvez o primeiro culpado por esta queda de rendimento seja Valtteri Bottas. O finlandês veio com a missão de substituir o campeão de 2016, Nico Rosberg, que vinha de uma temporada sensacional. O piloto do carro #77 pode não ter feito feio, mas, no comparativo, ficou longe do alemão em pontos (385 contra 305) e em vitórias (nove contra três).

Por outro lado, Lewis Hamilton teve praticamente o mesmo desempenho. Se no ano passado ele foi vice com 380 pontos e dez vitórias, em 2017 foram 363 pontos e nove vitórias. Isso com uma corrida a menos no calendário atual, diga-se.  Uma hipotética vitória em uma 21ª corrida o levaria a 388, enquanto um segundo lugar o deixaria com 381.

Ferrari x Ferrari

Podemos dizer que o vácuo deixando pela saída de Rosberg foi ocupado pela Ferrari de Sebastian Vettel. Obviamente que a equipe italiana construiu um carro melhor este ano, mas, ao analisar o todo, fica claro que uma temporada melhor de Bottas teria freado o crescimento vermelho.

Os números de Vettel: foram 212 pontos em 2016, com zero vitórias, contra 317 de 2017, incluindo cinco primeiros lugares. O crescimento do alemão foi um pouco melhor do que a queda de desempenho do segundo carro da Mercedes, após a troca de Rosberg por Bottas.

No outro carro da Ferrari, Kimi Räikkönen também melhorou, indo de 186 para 205  na pontuação. Como resultado, a equipe italiana reconquistou o vice-campeonato de construtores, perdido no último para a Red Bull. Pularam de 398 para 552 na tabela de pontuação – apesar de terem, ainda, ficado bem longe da Mercedes.

Resto x resto

Falando na equipe austríaca, podemos dizer que este comparativo é agridoce. Eles saíram de um ano no qual foram vice e conquistaram duas vitórias para um no qual ficaram em terceiro, mas com três primeiros lugares. A consistência – principalmente na primeira parte do campeonato – não foi a ideal, mas o carros rubro-taurinos cresceram muito na segunda metade do ano e Max Verstappen e Daniel Ricciardo podem sonhar com um 2018 bem melhor.

No resto do grid, a Force India teve um interessante crescimento (indo de 173 pontos para 187, isso com um GP a menos), enquanto a Renault recuperou muito do terreno perdido (saindo de apenas 8 para 57). Haas foi outra que cresceu: de 29 para 47. Enquanto isso, Toro Rosso e Sauber ficaram quase que na mesma.

As surpresas negativas foram mesmo Williams e McLaren. A equipe fundada por Frank despencou dos 138 pontos conquistados em 2016 para 83 em 2017. O resultado no campeonato continuou o mesmo – quinto – mas foi mais por sorte do que qualquer outra coisa. E olha que Felipe Massa tentou fazer a parte dele: o brasileiro ficou com 53 pontos em 2016, contra 43 deste ano – lembrando, mais uma vez, do GP a menos. A diferença foi no segundo carro: enquanto Valtteri marcou ótimos 85 pontos no seu último ciclo pela Williams, o substituto, Lance Stroll, ficou com 40.

Ok, olhando assim, é até surpreendente pensar que um estreante de 18 para 19 anos teve quase o mesmo resultado que o veterano Massa, mas também fica claro que a equipe inglesa sente a falta de um piloto rápido, consistente e com bastante energia para queimar – o que foi o caso de Bottas até recentemente.

Já o problema da McLaren é bastante conhecido: o motor. A Honda, depois de duas temporadas, resolveu mudar muita coisa no conceito das suas unidades de potência, o que jogou a equipe inglesa lá para o fim do pelotão. Com problemas de confiabilidade e consistência, Fernando Alonso, Stoffel Vandoorne e Jenson Button sofreram durante toda a temporada. Foi um calvário, que derreteu os 76 pontos de 2016 e os deixou com apenas 30 no ano que acaba agora. Dessa forma, a McLaren-Honda saiu do sexto posto na classificação e foi para o nono (e penúltimo).

A disputa pelo título

Como você já percebeu, a diferença entre os dois primeiros em 2016 foi muito menor do que em 2017 (385 x 380, contra 363 x 317). O fato é que, por mais que a Mercedes tenha dominado sozinha a temporada passada, a disputa pelo título foi mais acirrada e interessante, indo até a última corrida.

Desta vez, a Ferrari derrapou justamente quanto era a grande adversária, deixando de marcar pontos preciosos em Singapura, Malásia e Japão. Mesmo assim, com Vettel hipoteticamente vencendo essas três corridas, Hamilton ainda teria tudo para ganhar o título.

O que realmente desequilibra é a confiabilidade da Mercedes. As outras equipes têm problemas, falhas, erros. Os alemães, não. Ao disputar o título com Ferrari, Red Bull ou qualquer outro time, sabemos que uma hora o adversário irá falhar. É normal. É esperado. Mas isso não acontece com a Mercedes. Esta é a marca do domínio da equipe alemã.

O fato é que, enquanto disputa do título, 2016 foi muito melhor. O cenário pode ser mais interessante em 2018? Pode, claro, mas passa por um crescimento muito maior de quem será o adversário da Mercedes, eventualmente compensando algum problema que fatalmente terão. Ou que os alemães façam alguma escolha errada no desenvolvimento de seus carros, algo que finalmente acabe com esse equipamento quase que indestrutível. Ou, ainda, que Valtteri Bottas consiga repetir o desempenho mais recente de Nico Rosberg.

São coisas para se pensar, principalmente na hora de pular sete ondas no dia 31 de dezembro...

FONTE: https://grandepremium.grandepremio.uol.com.br/lado-a-lado/materias/f1-2017-x-f1-2016